sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Ecumenismo


Termos intraduzíveis na natalidade do Senhor
Derval Dasilio

O salmo 146 é uma das leituras do advento; prepara a vinda do Senhor. As ligações deste salmo com a vida de Jesus são inúmeras. Basta lembrar o esboço sobre o reino de Deus (Lucas 4.18-21) e as consequências desse manifesto de Jesus a respeito dos oprimidos em todos os níveis, dos famintos da terra (mais de 1,5 bilhões de homens, mulheres e crianças passam fome por lhes faltarem nutrientes mínimos para a sobrevivência). Fala de “prisioneiros”, guerras em todos os quadrantes por motivo de consciência ou de religião reprimida. Há sequestrados pela globalização cultural, sem direito à vida autêntica; há cegos às realidades esmagadoras de um mundo envolvido em lutas pelo poder.

O que é ser moderno, hoje? Ser “cool”, flexível, hedonista, libertário? O culto ao luxo, ao conforto, ao desperdício (“use e jogue fora”), deixa rastros bem visíveis no mundo egoísta e impiedoso de nossos dias. Há vítimas da cegueira escondidas atrás de luxuosos óculos italianos.

O salmo 146 evoca o carinho de Deus pelos exilados, retirantes, imigrantes, desprotegidos, perseguidos. Lembra as viúvas e os órfãos, símbolos dos esquecidos, despojados, sem trabalho, sem sustento, sem lugar no mundo. O reino que Jesus anunciou traz esperança para dentro da caminhada dos despossuídos, alijados do mercado e do mundo produtivo. Não podemos esquecer a atitude de Jesus contra os poderosos, ensinando-nos a não confiar neles e nos religiosos que os imitavam em hipocrisia, quando se dirigia a eles sem cuidado estilístico, proferindo palavrões em aramaico1.

Neste salmo Deus é aliado dos justos contra os injustos; é fiel aos esmagados pelos poderes deste mundo. Feliz quem se apoia nesse Deus! Os perversos referem-se a ele, para justificar a injustiça que cometem, mas é ele mesmo, Deus de Israel, que aponta os meios para enfrentar tais injustiças sem submissão às suas imposições. Há citações no salmo 146 sobre grupos humanos excluídos da vida econômica produtiva (explorados por poderosos injustos e seus apoiadores), aqueles que não têm privilégios e cujos direitos fundamentais são sistematicamente negados, e os que não têm liberdade de consciência e expressão. Outras paisagens são apontadas na utopia do salmo profético: a semi-escravidão do trabalho, jornadas imensas e sem descanso adequado.

O salmista evoca a fome de dignidade. Parece ter escrito hoje! Andando pelas ruas, o autor do salmo poderia também ser um dos que vislumbram sinais de esperança subindo os morros, convivendo com traficantes, no meio do tiroteio e das balas perdidas, caminhando com os habitantes dos lugares de toda pobreza e de imensa miséria: “A porta do barraco era sem trinco, / mas a lua furando o nosso zinco / salpicava de estrelas nosso chão” (Orestes Barbosa). As casas não têm mais zinco, mas os telhados e as paredes são perfurados por balas perdidas, nas proximidades dos morros.

Aqui, a poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem, dizia Pablo Neruda. Difícil é imaginar o poeta bíblico dentro de um shopping, veloz para gastar as economias reunidas o ano inteiro, cheio de urgências consumistas, respondendo ao marketing insistente da mídia natalina. Em Copenhague (COP-15), todas as igrejas da Dinamarca fizeram dobrar os sinos, a fim de exortar os líderes do mundo para que adotem medidas urgentes para salvar o planeta de uma catástrofe ambiental.

Quem está encantado pelas guirlandas, pelas lâmpadas piscantes, pelas árvores de natal em verdes artificiais, é convidado a deter-se por um momento e olhar ao redor. Pensar sobre a asfixia das festas inúteis, dos compromissos obrigatórios, das trocas de presentes, e parar para ouvir uma canção bíblica. Hora de escutar o tum-tum-tum rítmico envolvente, fascinante, dos que deviam chorar, mas incompreensivelmente dançam e cantam, talvez envolvidos pela esperança do Salvador. Porém é isso o que este salmo desperta em nós, ouvindo sua música, enquanto nos deixamos arrebatar. Escrevia o pastor Jacy Maraschin, irmão anglicano: “Como vamos cantar / este canto imprevisto, / tão distantes do lar, / tão num mundo sem Cristo (…) Como vamos cantar se o irmão é explorado, / se lhe fazem calar, / se ele é sempre anulado? / A canção do Senhor tem de ser verdadeira, / para ser o louvor na terra brasileira”. Então é Natal...

Nota
1. Fala original traduzida com excesso de escrúpulos por delicados tradutores (cf. Joachim Jeremias).


Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil.


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