domingo, 30 de agosto de 2009

segunda parte


Entrevista com Leonardo Boff:
A ecologia exterior e a ecologia interior.
Francisco, uma síntese feliz


IHU On-Line - Como entender a atualidade de São Francisco? Por que sua eterna busca pela bondade cativa tantos homens e mulheres?
Leonardo Boff - Em São Francisco, tudo é simples e direto. Não há nenhuma sofisticação nem segundas intenções. Nele, aparece o ser humano em sua inocência original, perdida na história por mil interesses individualistas e pela fome de poder, pela busca de cargos e status social e de acumulação de riqueza. Ele mostrou que ser pobre voluntariamente é muito mais que não ter nada, mas a continuada vontade de dar, de mais uma vez dar e de se despojar de todo interesse para poder comungar diretamente com as coisas e as pessoas, sem mediações que se interponham a essa vontade de estar junto e de sentir o coração do outro. No fundo, o ser humano sonha com um mundo no qual reine tal inocência, onde todos possam se sentir filhos e filhas da alegria e não seres condenados a viver no vale de lágrimas.

IHU On-Line - O Papa Bento XVI destaca a importância de São Francisco como homem da Igreja. Como o senhor vê o santo e qual sua opinião sobre a definição do Papa?
Leonardo Boff - O Papa é um saudosista e possui uma concepção de Igreja da tradição medieval, superada pela própria Igreja posterior. Ele vê a Igreja como um fim em si mesma e como condição necessária para a salvação da humanidade. Esquece que o Salvador não é a Igreja, mas Jesus que veio para todos, que ilumina cada pessoa que vem a este mundo e que, no fundo, é o Cristo cósmico da teologia de S. Paulo, quer dizer, aquele que redime não apenas a humanidade, mas toda a criação. Se há uma coisa que não define São Francisco é exatamente entendê-lo como homem de Igreja. Ele foi um homem do evangelho vivido “sine glossa”, quer dizer, sem as interpretações dos teólogos que praticamente sempre o emasculam ou o mediocrizam. Por isso, sua regra começa: “A regra e a vida dos frades menores é esta: seguir o santo evangelho de Nosso Senhor Jesus em obediência, pobreza e castidade”. Sabe-se, pela pesquisa histórica, que Roma condicionou a aprovação da regra com o acréscimo “sob a obediência ao Papa Honório e seus sucessores”. Mas Francisco queria que o Espírito Santo fosse o Geral da Ordem e não alguém nomeado pelos frades e aprovado pelos Papas. O que o Papa Ratzinger afirma vai contra todo o espírito de São Francisco. E mais: se enquadra dentro do eclesiocentrismo de sua teologia que no fundo é uma espécie de fundamentalismo, uma patologia religiosa.

IHU On-Line - Em que sentido São Francisco transformava as sombras de sua vida em luz? O senhor teria exemplos concretos da vida do santo que podem elucidar esse ponto?
Leonardo Boff - São Francisco assumia tudo como vindo das mãos de Deus, pois se sentia na palma da mão de Deus. Chamava a tudo de irmão e de irmã. Não apenas as coisas ridentes, mas também as sombrias e dolorosas. Chama as doenças de irmãs doenças. A própria morte é chamada de irmã morte. O curioso nele é que fazia das próprias fragilidades humanas e dos pecados caminhos para chegar a Deus pela via da humildade, da compaixão e da total entrega à misericórdia divina. Sentia-se “miserável vermezinho, pútrido, fétido, mesquinho, miserável e vil”. Seguramente era fétido, pois andava com o mesmo burel todo esburacado e sujo pelos poeirentos caminhos do vale de Rieti e da Umbria. Mas assumia a dimensão de sombras de forma jovial, pois nada, nem o pecado nem a morte, o afastava da íntima comunhão com Deus. Esse tipo de piedade é importante para um cristianismo libertador, pois ajuda os fiéis a superarem o moralismo e o farisaísmo. Assim como somos, pecadores e maus, seremos acolhidos e perdoados por Deus. Pois é essa a novidade do evangelho. Se fossemos tão bons e santos, não precisaríamos do Redentor, nem de seu sangue nem de sua morte. Mas Deus é o Deus da ovelha tresmalhada, do filho pródigo e da moeda perdida. Confiar que apesar destas sombras não saímos da esfera de Deus é libertar a vida para a jovialidade dos filhos e filhas de Deus, é ter descoberto o evangelho como expressão do amor incondicional e do rosto misericordioso de Deus. São Francisco viveu este tipo de experiência religiosa de forma intuitiva, sem reflexão teológica, como algo evidente para quem se orienta pela mensagem do Jesus histórico.

CÂNTICO DAS CRIATURAS

Altíssimo,
Onipotente,
Bom Senhor!
Teus são o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.
Louvado sejas, meu Senhor,
com todas as tuas criaturas,
especialmente o senhor irmão Sol, que clareia o dia
e que com sua luz nos ilumina.
Ele é belo e radiante, com grande esplendor
de ti, Altíssimo, é a imagem.
Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã Lua e pelas estrelas,
que no céu formaste, claras, preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor,
pelo irmão vento, pelo ar e pelas nuvens,
pelo sereno e todo tempo
com que dás sustento às tuas criaturas.
Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã água, útil e humilde, preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor,
pelo irmão fogo, pelo qual iluminas a noite.
Ele é belo e alegre, vigoroso e forte.
Louvado sejas, meu Senhor,
por nossa irmã, a mãe terra,
que nos sustenta e governa,
produz frutos diversos, flores e ervas.
Louvado sejas, meu Senhor,
pelos que perdoam, pelo teu amor,
e suportam as enfermidades e as tribulações.
Louvado sejas, meu Senhor,
por nossa irmã, a morte corporal,
de quem homem algum pode escapar.
Louvai todos e bendizei ao meu Senhor,
dai-lhe graças e servi-o com grande humildade.
Extraído de Revista IHU On-Line

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